segunda-feira, abril 23, 2018

O que foi o Putsch da cervejaria?



Foi uma tentativa dos nazistas de tomarem o poder. Os nazistas já estavam organizando um golpe de estado para o dia 11 de novembro de 1923 quando souberam que os três principais nome do governo na Baviera estariam em Munique para uma manifestação patriótica. Acharam que aquele era o momento ideal, embora houvesse os riscos relacionados à antecipação da data. Hitler custou a tomar a decisão. Até chegou a beber alguns goles de cerveja, coisa de raramente fazia. Finalmente aprovou o putsch.
O golpe, que deveria ser sério, degenerou numa comédia de erros. Ninguém sabia o que estava acontecendo, ou quem estava de que lado. As mensagens não chegavam ao seu destino, figuras importantes perdiam a calma e ordens eram dadas e revogadas a cada minuto.
A reunião patriótica aconteceu em uma cervejaria e a maioria dos presentes já estava embriagada quando Hitler subiu em uma mesa e, após dar um tiro para o alto, anunciou o golpe. Disse que o governo de Berlin havia sido derrubado pelos nazistas e ameaçou fuzilar os representantes do governo da Baviera se eles não concordassem em apoiar o golpe. Os três, claro, concordaram rapidamente com a exigência. Mas tão logo puderam sair da cervejaria, mudaram de idéia.
Para piorar, os membros da SA haviam tomado todos os edifícios públicos da cidade, menos o centro de comunicações, o que permitiu que os governistas chamassem reforços.
Enquanto isso, Hitler marchava na direção dos escritórios governamentais. Achava que seria aclamado, mas foi recebido a tiros. Dezesseis nazistas foram mortos. Goring foi atingido por uma bala, mas conseguiu fugir. Hitler deslocou fortemente o ombro e o general Ludendorff foi preso.
O que começou como um golpe vitorioso terminou como uma ópera cômica, mas Hitler saberia transformar esse desastre numa oportunidade de divulgar suas idéias.  

domingo, abril 22, 2018

Os bastidores de Piscose



Hitchcock já era um diretor consagrado quando dirigiu Psicose, em 1960. Seu nome num cartaz era quase certeza de sucesso de crítica e de público. Mas com Psicose, um filme barato e despretensioso, transformou-se num deus do cinema, ficou milionário e provocou verdadeira histeria coletiva. É a história dos bastidores desse sucesso inesperado que Stephen Rebello conta no livro Alfred Hitchock e os bastidores de psicose (iluminuras).
A obra é um relato amplo de todas as circunstâncias relacionadas ao filme, a começar pela história do serial killer Ed Gein, que, no final dos anos 1950 assassinou várias mulheres na região rural de Wisconsin. Gein era um solteirão de 51 anos que vivia de pequenos biscates (entre eles tomar conta dos filhos dos casais da região), excêntrico, mas aparentemente inofensivo. Um dia o assistente do xerife foi visitar a sua mãe e encontrou a loja da qual ela era proprietária fechada. Ao lembrar que Gein mencionara que iria na loja naquele dia, resolveu visitar a fazenda do cinquentão. O que ele e os demais policias encontraram era um verdadeiro filme de horror: entre produtos para embalsamento e embalagens para comida, havia dois pares de lábios humanos pendurados num cordão, alguns narizes em cima da mesa da cozinha, um bolsa e braceletes feitos de pele humana, quatro cadeiras estofadas de carne, um tambor feito com pele humana, uma vasilha de sopa feita com  um crânio, as peles descarnadas de quatro rostos de mulheres, com ruge e maquiagem presos à parede. Na estufa, o assistente do xerife encontrou sua mãe: estava nua, pendurada pelos calcanhares como um porco, e estripada.
O fato chocou a pequena localidade, principalmente depois que o assassino declarou à imprensa que nunca havia atirado em um cervo (e muitos se lembraram da deliciosa carne de viado que haviam ganhado dele).
Os jornais trataram Gein como o “açougueiro louco” e noticiaram seus assassinatos e suposto canibalismo, mas, com pudor, esconderam o travestismo, o roubo de cadáveres e a possível relação incestuosa com a mãe.
A 63 quilômetros dali, um escritor de 41 anos, discípulo e apadrinhado de H. P. Lovecraft, chamado Robert Bloch, procurava um tema para seu novo livro quando se deparou com uma pequena nota sobre um homem que fora preso após assassinar a dona de um armazém e pendurá-la, estripando-a como um cervo. Ele ficou intrigado com o fato de que um homem que nunca fora suspeito de nada e vivia numa pequena cidade do interior (em que, se alguém espirrasse no lado norte, alguém no lado sul diria saúde) acabara se revelando um assassino em série. Incrivelmente, as informações que conseguia sobre o fato eram mínimas, o que o fez usar mais a imaginação do que os fatos.
Na época, Freud estava em alta e Bloch decidiu dar ao seu personagem uma motivação psicológica bem ao gosto do criador da psicanálise: “Pensei: e se ele cometesse esses crimes num surto amnésico, sob controle de outra personalidade?”. Essa outra personalidade, seria, claro, a mãe, fechando a relação edipiana. Para funcionar, a mãe deveria estar morta, mas “Não seria legal se ela estivesse realmente presente de alguma forma? Foi quando me veio a ideia de que ele mantinha o corpo dela preservado”.
Segundo Rebello, ao usar a taxidermia como elemento principal da trama, Bloch cruzou a linha divisória entre o refinado mistério de salão do tipo “quem matou” e o puro terror. O livro seria revolucionário em mais um sentido: o escritor criou uma heroína simpática, deu a ela um problema, fez com que o leitor gostasse dela e a matou no primeiro terço da história, rompendo totalmente com o paradigma das histórias convencionais, em que os protagonistas sempre conseguem se safar das maiores dificuldades.
Bloch teria mais uma inspiração que seria fundamental para o filme: matar a heroína no chuveiro: “Eu tinha a opinião de que uma pessoa nunca está tão indefesa quanto no chuveiro”.
Quando o livro já tinha sido publicado e era um sucesso, Bloch soube de todos os detalhes do caso e percebeu o quanto seu romance era semelhante com a história real: “Ao inventar meu personagem, cheguei muito perto da personalidade real de Ed Gein. Fiquei horrorizado em pensar como eu podia imaginar tais coisas”. Tanto que passou anos se barbeando de olhos fechado, pois não se atrevia a olhar seu próprio reflexo no espelho.
Se de um lado Bloch estava assustado, do outro, Hitchock se sentia obsoleto com o sucesso comercial e de crítica do triller francês As diabólicas, de Clouzot. Ele queria uma história diferente, para um filme tipicamente “não-hitchcockiano”. Foi um assistente de produção que descobriu o livro, graças a uma resenha, e o apresentou ao diretor. Hitchock ficou fascinado especialmente com a cena do assassinato no chuveiro. Além disso havia o acréscimo da heroína que morria no primeiro terço da história. Sem falar na esperteza do recurso do travestismo. O diretor viu ali uma ótima oportunidade para um filme de suspense que superasse As diabólicas. Tanto que, quando os executivos da Paramount se negaram a financiar o projeto ele bateu o pé. “Você não vai conseguir o orçamento a que está habituado para fazer uma coisa assim. Nada de technicolor, nada de grandes atores. “Tudo bem eu dou um jeito”, retrucou ele.
Uma das soluções foi utilizar a barata equipe de seu programa de TV, que já estava habituada a filmar diversas cenas por dia. Para escrever o roteiro, contratou o iniciante James Cavanagh e, quando este não conseguiu desenvolver a trama (na primeira versão havia até mesmo uma história romântica para desviar a atenção do assassinato da mocinha), contratou outro ainda mais novato: Joseph Stefano, um ex-ator que antes de começar a escrever episódios para TV nunca tinha nem mesmo lido um roteiro. Para interpretar o vilão contratou o astro em ascensão Antony Perkins, por apenas 40 mil dólares. Era o salário mais alto de todo elenco, ironicamente a exata quantia que a heroína Mary Crane surrupia de seu patrão no filme.
Os custos de produção eram tão baixos que durante muito tempo acreditou-se que ele estivesse produzindo um episódio para televisão.
Contrariando as expectativas dos produtores, o filme foi um sucesso absoluto, faturando quinze milhões de dólares apenas no mercado americano no seu primeiro ano de exibição e transformando seu diretor em um milionário.
Psicose foi mais do que um sucesso. Foi uma febre. Por causa dele a venda de cortinas de opacas de banheiro caiu nos EUA, assim como o número de hospedes de motéis de beira de estrada.
É essa história que o escritor e roteirista Stephen Rebello destrincha em uma prosa agradável. Um livro de mais de 200 páginas, mas que se devora em um tapa, em especial se o leitor for fã de cinema.

sábado, abril 21, 2018

A arte belíssima de Daniel Brandão



O desenhista cearense Daniel Brandão já trabalhou para diversas revistas e editoras nacionais e internacionais, como DC Comics, Marvel, Dark Horse, Abril e Maurício de Sousa Produções.
Em 2016 ganhei o prêmio Al Rio como destaque local. Fui coordenador de conteúdo do curso de quadrinhos do projeto HQ Ceará (também ganhador do HQ Mix) e organizador da Antologia HQ pela Fundação Demócrito Rocha. É criador dos personagens Liz, Sebastião e Cariawara. Atualmente possui um estúdio próprio em Fortaleza, Ceará (Estúdio Daniel Brandão) onde ofereço cursos de desenho, quadrinhos e mangá. Confira a arte desse grande talento nacional. 









sexta-feira, abril 20, 2018

Elektra Vive



Uma das grandes inovações da primeira fase de Frank Miller no Demolidor foi a criação de Elektra, a grande paixão do herói. O fato dela ser uma assassina criou uma dinâmica única na série e um dilema ética para o herói poucas vezes visto nos quadrinhos de super-heróis. No auge da fama, Miller matou a personagem (em uma sequências mais emocionantes das HQs de todos os tempos). Mas provavelmente se arrependeu.
Elektra reapareceu logo depois, em uma HQ curta em que Murdock delira imaginando que personagem está viva. Depois em uma HQ em que o tentáculo tenta trazê-la de volta, sob controle dos assassinos. E, finalmente, em Elektra vive, publicada no final de década de 1980.
Quando o álbum foi publicado, Miller estava no auge da fama, o que lhe permitiu impor um formato gráfico diferenciado para os quadrinhos americanos. E estava no auge de sua capacidade como narrador gráfico. A começar pela capa, apenas como os créditos, título e a personagem andando em meio à neve. Outro destaque é a sequência de página inteira em que Murdock desce as escadas de seu apartamento. Com forte influência de Will Eisner, Miller aproveita a tendência do leitor de visualizar a página de cima para baixo para construir sua narrativa.
As cores de Linn Varley, esposa de Miller, destacam ainda mais a arte exuberante (bons tempos em que Miller sabia desenhar!!!).
A sequência em que Murdock vai à igreja para se confessar é relevante e revela muito sobre o personagem e suas origens católicas (algo que foi muito bem aproveitado na primeira temporada da série da Netflix). Mas as várias sequências de sonhos e do personagem se lembrando da personagem parecem apenas uma repetição do que Miller já tinha feito na revista do Demolidor.
Enfim, a pergunta: apesar da qualidade visível do álbum, era mesmo necessária uma história a mais com Elektra?
Elektra Vive foi publicada no início da década de 1990 pela editora Abril e volta agora em um álbum capa dura pela editora Panini.

quinta-feira, abril 19, 2018

Mestre do Kung Fu

          
  Na década de 1970, a grande moda eram as artes marciais. No cinema, os filmes de Bruce Lee eram sucesso de bilheteria. Na televisão, a série Kung Fu, com David Carradine (o “pequeno gafanhoto”) ganhava cada vez mais fãs. Não ia demorar muito, portanto, para que essa mania chegasse aos quadrinhos.
            A Marvel lançou o super-herói Punhos de Ferro, enquanto a DC lançou O Dragão do Kung Fu, sem falar nas pequenas editoras, que também publicaram revistas para aproveitar a febre. Mas o personagem mais famoso e mais emblemático dessa onda seria Mestre do Kung Fu, criado por Steve Englehart (roteiro) e Jim Starlin (desenhos).
            Os dois procuraram o editor-chefe da Marvel, Roy Thomas, com a proposta de adaptar para os quadrinhos o seriado de TV. Thomas lembrou que a série pertencia à Warner Bros, dona da DC. Então, ao oferecer a proposta para a Warner eles não só receberiam um não, como ainda dariam uma ótima idéia à DC Comics. Mas a editora do Super-homem já estava pensando em adaptar o seriado. Roberto Guedes, no livro A era de bronze dos super-heróis conta que Denny O´Neil teria alertado o Publisher da DC, Carmine Infantino,sobre a possibilidade da Marvel lançar esse material. “Não se preocupe. Se a Marvel lançar o Kung Fu, nós fazemos o Fu Manchu”. Fu Manchu era um vilão clássico dos pulp fiction (revistas baratas de contos, muito populares até a década de 1930). Roy Thomas ficou sabendo disso e resolveu comprar os direitos do personagem, transformando Fu Manchu no pai do herói da série.
            Assim, a revista em quadrinhos contava a história de Shang-Chi, um jovem mestre nas artes marciais, criado como uma arma viva por seu pai, Fu Manchu, que pretendia usá-lo para dominar o mundo. Ao descobrir as intenções de seu pai, Shang-Chi foge e se alia à agência britânica de espionagem, a MI-6, onde conhece aquela que seria sua namorada, Leiko Wu.
            A história estreou na revista Special Marvel Edition, 15 que passou a se chamar Master of Kung Fu a partir do número 17 por conta da popularidade do personagem.
            Embora Shang-chi tenha sido criado por Steve Englehart, foi Dough Moench que se estabeleceu no título, escrevendo as mais importantes histórias. Com a entrada de Paul Gulacy, estava formada a dupla favorita dos fãs.
            Gulacy tinha um traço fotográfico que espantou os fãs. Para tornar o trabalho mais realista, ele conseguiu uma cópia do filme Operação Dragão, projetou numa tela e fotografou as cenas congeladas. Assim, o personagem ficava com a cara de Bruce Lee.
            Gulacy desenhou a revista até o número 50, quando foi substituído por Jim Craig. Como este não conseguia cumprir os prazos, foi substituído por Mike Zeck.
            Mike Zeck costumava errar muito em anatomia e não tinha o traço fotográfico de Paul Gulacy, mas trouxe outras qualidades para a série. Seu desenho era fluido e elegante, e combinava muito bem com a nova fase do personagem, mais introspectiva. Depois das sagas centradas nas aventuras de espionagem, o gibi começou adentrar na filosofia zen budista e a explorar mais as relações entre os personagens.
            Esse foco ousado para um gibi de luta fez com que Mestre do Kung-Fu se destacasse de todas as revistas do gênero e durasse até o número 125, superando em muito o modismo das artes marciais. O último número, seguindo a linha introspectiva introduzida por Moench, mostrava o personagem se aposentando para se dedicar à filosofia oriental.

            Sem dúvida, a revista foi um dos grandes momentos da Era de Bronze dos quadrinhos americanos.  

Por que hitler não foi contido logo no início?




Os políticos convencionais demoraram muito para perceber que Hitler era uma ameaça. Logo no início do partido nazista, em 1922, ele foi preso por liderar um ataque a um grupo político rival. Alguns membros do governo sugeriram sua deportação para Áustria, já que oficialmente ele ainda era austríaco. Mas muitos outros integrantes do governo achavam que seu discurso magnético e as milícias que controlava seriam úteis no confronto contra os comunistas. Eles acreditavam que alguém como ele, sem experiência política, seria facilmente contido se ameaçasse fugir do controle.
A ameaça dos comunistas também fez com que muitos industriais importantes, como o presidente da União dos Trabalhadores do Aço, Fritz Von Thyssen, fizessem doações vultosas para o partido nazista. Só Von Thyssen doou 25 mil dólares ao partido. Também grandes fazendeiros faziam suas doações, achando que investindo em Hitler estariam afastando de si o fantasma de um governo socialista.
Quando Hitler tomou o poder e começou a armar a Alemanha, as grandes potências da época, em especial a França e a Inglaterra, não interferiram por achar que um governo de extrema direita afastaria a possibilidade da Alemanha se tornar socialista.
Também achavam que a falta de experiência diplomática e militar de Hitler faria com que ele fosse facilmente neutralizado se tentasse sair dos trilhos. Estavam todos errados.

quarta-feira, abril 18, 2018

A arte regionalista de Almeida Júnior


Almeida Júnior foi um dos mais importantes pintores brasileiros do século XIX. Com o apoio de D. Pedro II foi estudar na Europa, onde teve contato com os artistas realistas. Isso, associado a suas origens humildes fez com que ele se concentrasse em temas rurais e regionalistas. Foi o artista que melhor retratou o ambiente da roça. Era o artista predileto de Monteiro Lobato, que dedicou a ele vários textos.







terça-feira, abril 17, 2018

Crepax: a psicanálise chega aos quadrinhos


O quadrinho erótico sofisticado, surgido na França, encontrou na Itália o seu ponto de maior sucesso de público e crítica.
Gonçalo Júnior, no livro Tentanção à Italiana, diz que as HQs eróticas italianas foram diretamente influenciadas pelos filmes de cineastas como Fellini, Visconti e Pasolini e pelas transformações  pelas quais passava a sociedade italiana da época, que abandonava a rígida moral católica para entrar de cabeça na revolução sexual.
Entre os autores que se destacaram por colocar o quadrinho erótico italiano na categoria de o mais popular e respeitado do mundo, um nome se destacou por ter sido o primeiro a explorar o erotismo como uma forma de arte e pelo uso arrojado da linguagem quadrinística: Guido Crepax.
Crepax se interessou por quadrinhos desde muito pequeno. Aos 12 anos, ele fez a adaptação do romance O Médico e o Monstro. Quando cresceu, estudou arquitetura, engenharia e ficou famoso pelas capas de LPs e pelas ilustrações para livros, revistas e publicidade. Com o tempo, começou a ser visto como um artista gráfico revolucionário.
Em 1965 surgiu a revista Linus, voltada para fãs de quadrinhos. Era dirigido por alguns dos mais importantes intelectuais italianos, entre eles o filósofo Umberto Eco. Crepax foi convidado a colaborar por causa de seu trabalho gráfico inovador. Para sua estréia, ele criou o personagem Neutron, uma espécie de super-herói com poderes mentais. Logo na primeira história, ele é apresentado a uma elegante fotógrafa chamada Valentina. A personagem chamou tanta atenção dos leitores, que o desenhista resolveu transformá-la em protagonista, abandonando Neutron.
Fisicamente, a personagem era semelhante a Elisa Crepax, mulher do desenhista, com cabelo curto e franja cobrindo toda a testa. Valentina lembrava também, e muito, a atriz norte-americana Louise Brooks, estrela do filme “A caixa de Pandora”, de 1929. Crepax era tão apaixonado pelo filme que resolveu homenageá-lo em sua série. Assim, Valentina resolvera adotar aquele visual após assistir ao filme, como ele explicaria mais tarde.
A personagem era independente e sensual, encarnando a mulher de seu tempo e tornando-se símbolo da revolução sexual. Também se diz que foi em Valentina que Freud encontrou os quadrinhos eróticos. Cada HQ de Valentina era como uma sessão de terapia, na qual ela liberava suas fantasias eróticas com uma imaginação desenfreada. Outro em ponto em contato com os anos 1960 eram as viagens psicodélicas (embora estas não fossem motivadas por drogas). A personagem imaginava-se em meio a fantasias lésbicas, sadomasoquisas e surreais.
Os recursos gráficos usados por Crepax eram absolutamente inovadores para a época, com closes, planos detalhes, cortes bruscos e uso genial do claro-escuro e da hachura. Além disso, Crepax transformou os cenários e a até as roupas em elementos que ajudavam a compor a história. Poucas vezes a lingiere foi mostrada tão detalhadamente em uma HQ e certamente nunca a roupa íntima feminina serviu tão bem aos propósitos eróticos.
Depois do sucesso de Valentina, Crepax criou Bianca, uma aluna em um colégio interno, e Anita, que ficou famosa ao fazer sexo com o televisor. Mas o auge da carreira desse quadrinista foram as adaptações de obras literárias eróticas, como A história de O, Emmanuele e A Vênus das peles.
Nessas obras, Crepax não se esmerava em desenhar homens. Muito pelo contrário, eles constantemente pareciam grotescos, mas caprichava nas mulheres. Elas eram sempre altas, magras e sensuais.

Quando Crepax morreu, em 2003, era uma celebridade que abrira as portas para que os quadrinhos eróticos italianos fossem vistos como uma forma de arte. 

O que foi o Tratado de Versalhes?



O Tratado de Versales foi a rendição alemã, assinada após a I Guerra Mundial, em 1919. Os vitoriosos se dividiram quanto aos termos do tratado. A Inglaterra e os EUA queriam que a Alemanha continuasse um país capitalista para impedir o avanço do comunismo. Mas a França faz exigências que mergulhariam o país numa crise que desembocaria no nazismo.
O Tratado atribuía à Alemanha a responsabilidade pela guerra. Foram retirados oito partes de seu território, fazendo com que também sua população tivesse uma diminuição considerável. Todas as colônias alemãs ficaram com a Inglaterra e a França. Pelas clásulas do tratado, a Alemanha só poderia ter um exército de 100 mil homens, e apenas para auto-defesa.
O país não poderia construir tanques, submarinos ou aviões, e deveria desativar completamente sua indústria bélica. O comando militar foi destroçado com a proibição de existência de uma escola de guerra.
Mas os principais resultados negativos do Tratado se deram no campo econômico. As indenizações a ser pagas por esse país aos vencedores corroiam a economia nacional. O país mergulhou numa crise violenta, com inflação galopante.
O Tratado, embora fosse severo em regras, tinha a falha de não apresentar mecanismos para o cumprimento dessas regras. Isso deu margem ao ressurgimento do nacionalismo, que agora ressurgia radical e racista, pautado no ódio aos judeus e comunistas, vistos como responsáveis pela derrota na guerra.

segunda-feira, abril 16, 2018

The Spirit – as novas aventuras



Spirit é um dos mais queridos e mais clássicos personagens dos quadrinhos. Criado por Will Eisner na década de 1940, o personagem revolucionou a narrativa gráfica esbanjando as potencialidades da linguagem e criando recursos únicos, como prédios que formavam o título da história ou o nome do personagem. Além disso, a série revolucionou ao focar não só no protagonista, mas principalmente em personagens secundários, o que dava um toque muito humano à série.
Por ser um personagem autoral, Eisner não autorizava que a editora que publicava o personagem desde a década de 1970, a kitchen, fizesse histórias do herói com outros autores.
Em 1998 o editor convenceu o Eisner a finalmente permitir uma publicação com vários autores mostrando suas versões do personagem. O resultado é o álbum publicado pela editora Devir.
O resultado é irregular. Algumas histórias conseguem captar a essência inovadora do personagem – outras são simplesmente histórias do personagem.
Entre o melhor da edição estão as histórias escritas por Alan Moore e desenhadas por Dave Gibbons, que abrem a edição. As duas HQs interligadas conta a origem de dois dos principais vilões do Spirit: O Cobra e o Octopus. As duas, ao focarem nos vilões, exploram seus lados humanos, inclusive com as contradições entre as duas narrativas. A ironia entre o que ambos relatam e o que de fato acontece cria alguns dos melhores momentos dessas HQs.
A dupla ainda entrega outra história genial, agora sobre o assistente do Doutor Cobra, que teria morrido na primeira história do Spirit. Moore, como sempre, costura tudo, aproveitando as pontas soltas das histórias originais.
Outro ponto alto do álbum é “Domingo no parque com São Jorge”. O desenho underground de Dan Burr se encaixa perfeitamente com a narrativa de Jim Vance sobre o dia em que Spirit foi convencido a descansar no parque – o que, claro, o coloca em uma tremenda confusão.
Temos ainda Neil Gaiman fazendo o que Neil Gaiman sempre faz: uma história sobre um escritor escrevendo algo que se entremeia à narrativa. No caso, um roteirista de cinema que tenta escrever um roteiro policial e se depara com o Spirit investigando um caso real. Apesar do clichê a la Gaiman, é uma HQ divertida.

domingo, abril 15, 2018

Heróis da TV 40

Publicada em outubro de 1982, a revista Heróis da TV 40 trazia como principal atração a origem de Conan por Roy Thomas e Barry Windor-Smith. Essa história é considerada fraca até mesmo pelos autores, então a editora havia introduzido o personagem com histórias melhores e só depois publicou sua origem com uma capa que não era a original. Conan se tornaria o personagem mais popular dessa fase da Marvel na Abril.

sábado, abril 14, 2018

A arte de Murphy Anderson, o homem de prata


Murphy Anderson foi um dos principais nomes da DC na era de prata dos super-herois. Seu trabalho em personagens como Adam Strange se tornaram antológicos. Confira algumas de suas obras.











HQ de Gian Danton e Edgar Franco é capa de revista científica


Página de HQ do Ciberpajé e de Gian Danton são capa da revista acadêmica "Cadernos Zygmunt Bauman" (V.6, n.12), da UFMA.
A convite dos editores da revista acadêmica "Cadernos Zygmunt Bauman", o Ciberpajé e o roteirista Gian Danton cederam a arte de uma página da HQ "A Caverna", criada em parceria pelos dois, para ser a capa do Volume 6, Número 12 (2016) da publicação. 

"Cadernos Zygmunt Bauman" é um periódico da Universidade Federal do Maranhão, nas seguintes áreas de concentração: Interdisciplinar, Direito, Serviço Social, Filosofia, Sociologia, Psicologia e Desenvolvimento Regional. A revista pode ser acessada gratuitamente neste link.

sexta-feira, abril 13, 2018

Como o partido dos trabalhadores alemães virou partido nazista?



Com o tempo, a participação de Hitler no Partido dos Trabalhadores Alemães foi se tornando mais e mais forte e, em 1920 ele acrescentou as palavras “Nacional Social” à legenda. O objetivo era mostrar a amplitude de sua área de atuação. O partido passou a chamar-se Partido Nacional-social dos trabalhadores alemães, ou partido nazi, como ficou mais conhecido.
Com o sucesso do partido, Hitler abandonou o exército para se dedicar exclusivamente à sua vida política.
Ele logo descobriu que, além de bom orador, gostava de dirigir grandes espetáculos e passou a preparar marchas e demonstrações públicas que davam visibilidade ao partido. Além disso, ele desenhou cartazes dramáticos, adotou a suástica como símbolo e instituiu a saudação nazista, com o braço levantado e a mão esticada. O gesto era uma imitação da saudação dos soldados romanos.
Essa visibilidade fez com que o povo começasse a respeitar cada vez mais o partido nazi.


Você sabe a diferença entre ficção e fraude?


Atualmente nos quadrinhos, na literatura, na arte, existem trabalhos tão hiper-reais, tão verossimilhantes que muitos acreditam que se trata de realidade. Por conta dessa confusão, há quem diga que trabalhos que utilizam essa estratégia são na verdade fraudes.
Isso aconteceu, por exemplo, com o e-book Delegado Tobias, de Ricardo Lísias. A narrativa usa recortes de jornais e documentos jurídicos fictícios e vários outros simulacros para tecer a narativa.
Alguém, ou ingênuo, ou mal-intencionado, denunciou-o à justiça por falsificação de documentos jurídicos e instalou-se um processo para investigar o caso. Justiça federal, Ministério Público Federal e Polícia Federal foram mobilizados para investigar o caso, com enorme gasto de dinheiro público. Quando ficou claro do que se tratava, cada órgão jogou a culpa no outro e todos declararam que não investigavam ficção. A própria justiça teve que declarar oficialmente aquilo que todo mundo deveria saber: falsificação é falsificação e ficção é ficção (por mais verossimilhante que seja).
A situação é simples: se o autor do livro tivesse entrado num fórum e adulterado documentos jurídicos reais, ele estaria cometendo uma fraude. Ao criar um documento jurídico e incluir em seu livro, o autor só está criando... ficção.
Um outro exemplo, famoso, agora na área de quadrinhos.

No final de cada capítulo de Watchmen, o leitor encontra uma série de anexos: matérias de jornais, recortes de artigos e até o prontuário médico do personagem Roschach.
Esses anexos são fraudes? Não.
Seria uma fraude se Alan Moore tivesse, por exemplo, ido em uma clínica médica e modificado o prontuário de um paciente real. Mas criar o prontuário médico de um personagem fictício é apenas... ficção!
Mas Gian, eu acreditei que determinado personagem de um quadrinho existia! No quadrinho que eu li tinha até a carteira de identidade dele! Isso não é uma fraude?
Não. Isso só demonstra que o autor do quadrinho conseguiu usar bem a verossimilhança para caracterizar esse personagem.
Isso seria uma fraude se, por exemplo, alguém criasse um personagem chamado Peter Parker e forjasse uma carteira de identidade dele para inscrevê-lo no tribunal eleitoral para que esse "personagem" pudesse votar. Ou usar essa identidade para pegar dinheiro emprestado e não pagar.
- Mas, Gian, o quadrinista cobrou pela HQ. Então ele teve lucro. Isso não é fraude?
Claro que não. Se fosse assim, qualquer um que vendesse uma HQ estaria incorrendo em fraude, já que toda HQ usa em maior ou menor grau, estratégias de verossimilhança.
O que caracteriza a fraude é a manipulação de DOCUMENTO OFICIAL visando prejudicar alguém. E todos nós sabemos, crianças, que uma história em quadrinhos não é um documento oficial. História em quadrinhos é apenas... ficção!

quinta-feira, abril 12, 2018

X-men - A Fênix Negra


Embora já começassem a chamar a atenção desde o início da nova fase, os X-men só se tornaram um sucesso estrondoso a partir da saga de Protheus.
Protheus era um mutante extremamente poderoso, capaz de manipular a realidade. Mas tinha um defeito: para viver, precisava possuir corpos de pessoas, que não sobreviviam muito tempo. Essa necessidade constante de corpos criaria uma verdadeira carnificina por onde ele passava.  
A trama mostrava que a série era revolucionária e estava anos luz à frente da maioria dos quadrinhos publicados na época.
Para começar, havia a violência. Protheus era um vilão de verdade, que matava pessoas friamente e representava um perigo real para a humanidade. A relação dele com o pai, de amor e ódio, mostrava um aspecto psicológico avançado para os gibis de super-heróis. Até mesmo seu poder de alterar a realidade, era algo novo nos quadrinhos.
Diante de um inimigo tão perigoso, só restou uma opção aos X-men: matá-lo usando contra ele sua única fraqueza: o metal.
Na década de 1970, super-heróis não matavam, sob circunstância nenhuma, mas a revista dos X-men estava mudando padrões.
A saga seguinte cairia como uma bomba nos gibis de super-heróis e seria a grande responsável pela popularidade do título nos anos seguintes.
Os autores resolveram trazer a Fênix de novo, mas como lidar com uma personagem que tinha poderes muito maiores do que os dos outros membros? Simples: transformando-a em uma vilã!
A Saga da Fênix mostrava a personagem tendo flashbacks do que parecia ser uma encarnação passada dela, em que ela participava do Clube do Inferno, sendo esposa de um dos seus líderes, Jason Wyngarde. Na verdade, tratava-se de uma trama de um antigo inimigo dos X-men, o Mestre Mental, que pretendia dominar a heroína para usar seus poderes em interesse próprio.
A revista começou a chamar a atenção dos chefões de Marvel e a equipe acabou sofrendo duas interferências editoriais.  A primeira delas é que a Mansão X deveria justificar o nome de Escola para Jovens Superdotados do Professor Xavier e, portanto, deveria ter pelo menos um aluno. A segunda é que a revista deveria ser usada como trampolim para o lançamento de uma personagem baseada na dance music, Cristal.
Claremont e Byrne fizeram Xavier voltar à equipe e pedir para seus pupilos contatarem duas novas mutantes. Uma delas era Cristal, a outra era uma jovem chamada Kitty Pryde que tinha poderes de atravessar a matéria.
Kitty Pride acabou sendo um achado, pois providenciou uma identificação com o público jovem. Além disso, ela foi a primeira heroína declaradamente judia dos quadrinhos.
Em busca das duas novas mutantes, os X-men acabam tendo de enfrentar o Clube do Inferno e uma nova vilã, a Rainha Branca. Essa personagem fez grande sucesso com os leitores. Era loira, linda, e só usava roupas fetichistas.
Os heróis conseguem derrotar os oponentes e decidem entrar na sede do Clube do Inferno para descobrir porque estavam sendo caçados. Ao entrarem na sede do clube, acabam sendo derrotados depois que o Mestre Mental toma o controle da Fênix, que passa a se chamar Rainha Negra.
Um único mutante sobrevive: Wolverine, e a ele resta a missão de libertar os companheiros. As sequências em que ele anda pelos esgotos, derrotando os inimigos é seu ponto máximo. A partir dali, ele se tornaria o herói mais popular dos X-men e um dos mais populares dos gibis de super-heróis.
Wolverine consegue libertar os amigos e Fênix, liberada do domínio do Mestre Mental, vinga-se do Clube do Inferno. Mas a saga estava apenas chegando ao seu ápice. Na sequência, Jean Grey perde o controle e transforma-se na Fênix Negra.
A nova criatura derrotou facilmente os X-men e foi para o espaço alimentar-se. Sua fome de poder era tão grande que ela sugaria a energia de uma estrela. Byrne achou que devorar uma estrela não teria tanto impacto se nas proximidades não tivesse um planeta habitado. Assim, ele retratou um planeta seres inteligentes sendo destruído no processo.
A idéia dos autores para a continuação dessa trama era simples: Fênix voltava para a Terra, derrotava os X-men, mas o Professor Xavier, com a ajuda do lado bom de Jean, acabaria afastando a Fênix Negra e reduzindo os poderes da heroína aos níveis de quando ela se chamava Garota Marvel. Em seguida, a imperatriz Lilandra, do Império Shiar, aparecia e levava os X-men para a Lua, onde eles deveriam combater a Guarda Imperial. Com a vitória da Guarda, Jean passaria por um processo no qual perderia todos os seus poderes e sairia do grupo. Com isso, o problema dos super-poderes da Fênix (que dificultava a elaboração dos roteiros) seria definitivamente resolvido.
Acontece que nesse período a edição que mostrava a Fênix destruindo um planeta habitado caiu nas mãos do editor-chefe da Marvel, Jim Shooter e esse ficou horrorizado. Para ele, não havia a opção final feliz. A personagem tinha que sofrer. Ele exigiu que a personagem fosse enclausurada num asteróide, onde seria torturada por toda a eternidade. Claremont e Byrne, ao ouvir essa exigência, disseram: Por que não a matamos de uma vez? E foi isso que fizeram. A edição, que já estava pronta, foi retrabalhada para que a Fênix acabasse se suicidando para evitar se transformar novamente na Fênix Negra.

A morte da personagem causou uma comoção sem tamanho entre os fãs. Nunca tinha acontecido de uma personagem importante, em plena ascensão, morrer nos gibis de super-heróis. A edição com a morte esgotou rapidamente e, a partir daí o título começaria seu caminho para se tornar o mais vendido do mercado. 

quarta-feira, abril 11, 2018

A arte hiper-real de Ron Mueck

Ron Mueck é um artista australiano radicado na Gran Bretanha. Seu trabalho reproduz figuras humanas com perfeição hiper-real, mas em escalas estranhas (ou muito pequena ou muito grande), que desconsertam o expectador e o levam a um outro olhar sobre a realidade.